Wednesday, November 15, 2006


A rotina e a quimera


Sempre se falou mal de funcionários, inclusive dos que passam a hora do expediente escrevinhando literatura. Não sei se esse tipo de burocrata-escritor existe ainda. A racionalização do serviço público, ou o esforço por essa racionalização, trouxe modificações sensíveis ao ambiente de nossas repartições, e é de crer que as vocações literárias manifestadas à sombra de processos se hajam ressentido desses novos métodos de trabalho. Sem embargo, não se terão estiolado de todo, tão forte é, no escritor, a necessidade de exprimir-se, dentro da rotina que lhe é imposta. Se não escrever no espaço de tempo destinado à produção de ofícios, escreverá na hora do sono ou da comida,
escreverá debaixo do chuveiro, na fila, ao sol, escreverá até sem papel – no interior do
próprio cérebro, como os poetas prisioneiros da última guerra, que voltaram ao soneto como
uma forma que por si mesma se grava na memória.
E por que se maldizia tanto o literato-funcionário? Porque desperdiçava os minutos do seu
dia, reservado aos interesses da Nação, no trato de quimeras pessoais. A Nação pagava-lhe
para estudar papéis obscuros e emaranhados, ordenar casos difíceis, promover medidas
úteis, ouvir com benignidade as “partes”. Em vez disso, nosso poeta afinava a lira, nosso
romancista convocava suas personagens, e toca a povoar o papel da repartição com
palavras, figuras e abstrações que em nada adiantam à sorte do público.
É bem verdade que esse público, logo em seguida, ia consolar-se de suas penas na trova
do poeta ou no mundo imaginado pelo ficcionista. Mas, sem gratidão especial ao autor, ou
talvez separando neste o artista do rond-de-cuir, para estimar o primeiro sem reabilitar o
segundo.
O certo é que um e outro são inseparáveis, ou antes, este determina aquele. O emprego do
Estado concede com que viver, de ordinário sem folga, e essa é condição ideal para bom
número de espíritos: certa mediania que elimina os cuidados imediatos, porém não abre
perspectiva de ócio absoluto. O indivíduo tem apenas a calma necessária para refletir na
mediocridade de uma vida que não conhece a fome nem o fausto; sente o peso dos
regulamentos, que lhe compete observar ou fazer observar; o papel barra-lhe a vista dos
objetos naturais, como uma cortina parda. É então que intervém a imaginação criadora, para
fazer desse papel precisamente o veículo de fuga, sorte de tapete mágico, em que o
funcionário embarca, arrebatando consigo a doce ou amarga invenção, que irá maravilhar
outros indivíduos, igualmente prisioneiros de outras rotinas, por este vasto mundo de
obrigações não escolhidas. (...)
Carlos Drummond de Andrade. Passeios na ilha. In: Poesia completa e prosa Rio de Janeiro: José Aguilar, 1973, p. 841.

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